Pular para o conteúdo principal

SEJA FEITA A TUA VONTADE

Nos céus, algum anjo de Deus ou outro ser celestial ousaria viver segundo uma vontade conflitante com a divina? Não. Mas na terra os homens vivem segundo suas próprias vontades. Separados de Deus, muitos consideram que Ele nem sequer exista. Por isso, esse pedido está intimamente relacionado ao anterior: “venha o teu Reino”. Pedir que a vontade de Deus seja feita aqui na terra como no céu significa orar pela implantação do Reino de Deus no mundo. Esse Reino não é um lugar, uma região, mas o reinado de Deus nos corações dos homens. É a humanidade vivendo novamente em comunhão com o Criador.

Todavia, há também uma dimensão pessoal nessa súplica. Ela fala de sujeitarmos nossa vontade à do Senhor. É nesse ponto que muitos cristãos se desiludem da vida de oração. Vamos ao Pai com nossa lista de pedidos e queremos que eles sejam atendidos. Como nossa vontade pessoal é mais forte que a submissão à vontade divina, não aceitamos ou não compreendemos por que certos pedidos não têm um “sim” como resposta. Por essa razão, muitos passam a utilizar “métodos e técnicas” de orar para aumentar sua eficácia, como se Deus fosse uma força que pudesse ser manipulada. Contudo, mesmo com o uso desses expedientes, o “não” permanece e, assim, muitos desistem de buscar uma vida profunda de oração.

Deus sabe o que é melhor para nós e por isso, muitas vezes, responde com um “não” ou um “espere”. O geraseno endemoninhado depois de liberto pelo Senhor Jesus suplicou-lhe para que o acompanhasse junto com os apóstolos, mas Jesus disse “não” e o mandou retornar ao seu povo e dar testemunho do que Deus lhe fizera. “Assim, o homem se foi e anunciou na cidade inteira o quanto Jesus tinha feito por ele” (Lucas 8.26-39). Deus tem os seus propósitos em nossa vida. Às vezes, precisamos passar por situações indesejadas porque o Senhor quer moldar o nosso caráter e ensinar algo. No Getsêmani, Jesus orou: “meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo não seja como eu quero, mas sim como tu queres” (Mateus 26.39).

Precisamos ter uma atitude mais humilde em nossas orações. Após o término do sermão do monte, um homem doente com lepra aproximou-se de Jesus, o adorou de joelhos e disse: “Senhor, se quiseres podes purificar-me! Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: quero. Seja purificado! Imediatamente ele foi purificado da lepra” (Mateus 8.2,3). “Se quiseres...” Temos coragem para orar assim? Esse tipo de postura denota o reconhecimento de que Deus tem o poder para realizar o milagre que pedimos, mas que a vontade dele é soberana. Ele não é obrigado a atender-nos e, se isso acontecer, aceitaremos o fato, pois essa é a vontade dele para a nossa vida, ainda que não a entendamos. “A vontade de Deus é o possível que podemos orar”[1].

Jesus disse: “o que vocês pedirem em meu nome, eu o farei” (João 14.14). Por que então muitas de nossas orações não são atendidas positivamente? Ele disse essas palavras no contexto da realização da obra de Deus (João 14.10-14). Elas não podem ser aplicadas ao nosso bel-prazer. Noutra oportunidade, o Senhor disse: “Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido” (João 15.7). A permanência em Cristo molda a nossa vontade conforme a divina. Em Cristo, aprendemos a ter vontades segundo a vontade de Deus (Romanos 8.5). O Apóstolo João disse: “se pedirmos alguma coisa de acordo com a vontade de Deus, ele nos ouvirá” (1João 5.14).

Como já foi dito, não sabemos orar porque o fazemos como se fôssemos o centro da oração. Isso explica a nossa ansiedade por ter as orações atendidas. Com os olhos em nosso projeto pessoal de vida, nós nos angustiamos e desejamos ardentemente ver nossas orações respondidas. Usamos a oração, em muitos casos, como instrumento para alcançarmos nossos propósitos. Mas Deus tem os seus planos para cada filho seu. Santo Agostinho, em suas Confissões, disse: “todos vos consultam o que desejam, mas nem sempre ouvem o que querem. O vosso servo mais fiel é aquele que não espera nem prefere ouvir aquilo que quer, mas se propõe aceitar, antes de tudo, a resposta que de vós ouviu”[2].

O evangelista Marcos relatou que os irmãos Tiago e João pediram a Jesus posições importantes no reino que Ele estava implantando. Eles pensavam que o Senhor iria expulsar os romanos e restaurar o reino terreno de Israel. Mas Jesus respondeu: “vocês não sabem o que estão pedindo...” e não atendeu a oração deles. Apesar disso, ambos permaneceram no Senhor e tiveram um futuro que, aos olhos do mundo, não seria visto como um sucesso. Tiago logo morreria, após a ressurreição do Senhor, por causa do testemunho de Cristo (Atos 12.2) e João, segundo a tradição, viveria pobremente como pastor da comunidade cristã de Éfeso, fundada por Paulo. Durante sua vida, seria preso várias vezes, torturado e exilado numa ilha. Não é fácil orar: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.

Antônio Maia - M. Div.

Direitos autorais reservados

[1]  KIERKEGAARD, Sören. O Desespero Humano. Ed. Martin Claret, São Paulo, 2009, p.42.

[2] AGOSTINHO, Santo. Confissões. Editora Vozes, São Paulo, 2011, p.240.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

JESUS, INCOMPREENDIDO. - PARTE II

Como visto na primeira parte dessa reflexão, até mesmo os discípulos, que eram tão próximos a Jesus e caminhavam com Ele, não o compreendiam, de início. A causa, como já dito, era o fato de que eles esperavam um Messias político-nacionalista que libertaria Israel do império romano e o elevaria a uma posição importante entre as nações. No entanto, Jesus não se envolvia com política, era profundamente espiritual e afirmava que seu “Reino” não era deste mundo (João 18:36). Na verdade, o centro de seu ensino e pregação era, exatamente, o “Reino de Deus” (Lucas 6:20; 8:10; 9:62; 10:9; 11:2; 11:20; 12:31; 13:29; 16:16;17:20,21; 18:16,24; 21:31; 22:29,30). Mas, outros aspectos de sua pessoa contribuíam para essa incompreensão. Embora fosse um homem de “carne e sangue” com família e endereço fixo, seu nascimento sobrenatural, sua vida profunda de oração e a originalidade de seu ensino e pregação faziam as pessoas o virem como diferente e especial. Contudo, nada foi tão forte e impactante para

A MORTE DE CRISTO

  O autor do livro de Hebreus, escrevendo sobre Jesus, narrou: “portanto, visto que os filhos são pessoas de carne e sangue, ele também participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte” (2.13,14). Neste texto, três questões se destacam: a necessidade de Deus, na pessoa do Filho, participar da condição humana, isto é, entrar no mundo; a vitória de Jesus sobre o Diabo; e o sacrifício de Jesus, na cruz, que salva da morte os seres humanos. Com respeito à primeira questão, pode-se afirmar que o Filho entrou no mundo para libertar a humanidade da morte eterna, que se instalou, no ser humano, por ocasião do pecado original. O Apóstolo Paulo escrevendo sobre esse assunto, aos Romanos, falou: “da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecar

JESUS, INCOMPREENDIDO. PARTE I

Os evangelhos mostram que até os discípulos de Jesus, de início, não o compreendiam. Ele era de “carne e sangue” (Hebreus 2.14) como todos nós, tinha uma família, uma profissão, mas os discípulos notavam que Ele era diferente. Suas atitudes, sua fala, sua espiritualidade e seu poder para realizar milagres faziam os discípulos o verem como o Messias que estava por vir, mas não exatamente como eles pensavam. Certa noite, enquanto eles atravessavam o mar da Galileia, Jesus dormia na popa do barco, quando sobreveio grande tempestade de tal modo que os discípulos se desesperam e o acordaram, clamando por socorro. Então, Jesus repreendeu o vento e a fúria do mar e logo veio grande calmaria. Ao verem Ele fazer aquilo, os discípulos ficaram admirados e falavam uns com os outros: “quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Marcos 4: 35-41). Mas essa incompreensão sobre a pessoa de Jesus não estava limitada apenas aos discípulos. Certa vez, Ele retornou à cidade onde cresceu, Nazaré