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ADORAÇÃO E SOFRIMENTO EM JÓ



O livro de Jó, obra da literatura sapiencial dos judeus, é, ao mesmo tempo, majestoso e difícil. A história, em si, que ele apresenta é simples, mas o que o autor deseja, realmente, ensinar nessa narrativa? Tudo começa quando “certo dia os anjos vieram apresentar-se ao SENHOR, e Satanás também veio com eles”. Então, Deus disse para ele: “reparou meu servo Jó? Não há ninguém na terra como ele, irrepreensível, íntegro, homem que teme a Deus e evita o mal” (Jó 1:6-8).

Satanás, então, falou para Deus: “será que Jó não tem razões para temer a Deus?... Tu tens abençoado tudo o que ele faz... Mas estende a tua mão e fere tudo o que ele tem, e com certeza ele te amaldiçoará na tua face” (Jó 1:9-11). Então, Deus deu permissão a Satanás para assim fazer e Jó perdeu toda a sua riqueza e filhos. Mas a reação de Jó foi a seguinte: “O SENHOR deu, o SENHOR levou; louvado seja o nome do SENHOR... e não culpou Deus de coisa alguma” (Jó 1.6-22).

Em outra oportunidade, os anjos vieram apresentar-se ao SENHOR, e Satanás veio com eles. Disse então o SENHOR a Satanás: “reparou meu servo Jó?... Ele se mantém íntegro, apesar de você me haver instigado contra ele para arruiná-lo sem motivo” (Jó2:3). Então Satanás disse: “um homem dará tudo o que tem por sua vida. Estende a tua mão e fere a sua carne e os seus ossos, e com certeza ele te amaldiçoará na tua cara” (Jó 2:1-4).

O SENHOR, então, permitiu que assim se procedesse, mas que a vida dele fosse poupada. Desse modo Jó foi afligido “com feridas terríveis, da sola dos pés ao alto da cabeça”. Sua esposa, ao ver seu estado, disse: “amaldiçoe a Deus e morra! Ele respondeu: você fala como uma insensata. Aceitaremos o bem dado por Deus e não o mal? Em tudo isso Jó não pecou com seus lábios” (Jó 2:6-10).

Desse ponto em diante, isto é, do capítulo três ao trinta e sete, a narrativa prossegue mostrando um diálogo de Jó com alguns amigos. Esses o fazem sofrer ainda mais, pois afirmam que ele está passando por aquele sofrimento por causa de pecado (Jó 4:7-8). Jó, porém, alega que não. Ele entende que está sofrendo injustamente e se defende: “ensinem-me e me calarei; mostre-me onde errei... Há alguma iniquidade em meus lábios? (Jó 6:24,30). À certa altura, ele amaldiçoa o dia de seu nascimento (Jó 3:1-4) e reclama que Deus o trata com injustiça (Jó 9:28-35). A história termina com um discurso de Deus, no qual reconhece a retidão de Jó e o cura e ainda restaura “em dobro tudo o que tinha antes”.

Do resumo, acima, observa-se que a primeira questão relevante tratada, nesse livro bíblico, diz respeito à adoração a Deus. Sabe-se que a figura de Satanás é enigmática e que ele tem desejo de ser adorado como Deus. Isso pode ser observado, por exemplo na tentação de Cristo (Mateus 4:8). Aqui, observa-se ele pondo em dúvida a piedade de Jó ao dizer que ele só era integro, diante de Deus, porque era abençoado. Ao fazer isso, Satanás questiona se Deus é digno de adoração pelo simples fato de ser Deus ou por causa de sua glória e majestade. Uma pessoa pode adorar ao Criador sem esperar nada em troca? Sim. A narrativa mostra isso, bem como o ciúme que Satanás tem de Deus. 

Outra questão evidente em Jó é a do sofrimento do justo. Os amigos de Jó falam da noção retributiva, isto é, o sofrimento dele era consequência do pecado. Eles dizem: “...quem cultiva o mal e semeia maldade, isso também colherá” (4.8). Sim, é verdade: o pecado é fonte de sofrimento. Também sofremos pelo simples fato de estarmos no mundo, pois o sofrimento entrou no mundo com a Queda do homem. Mas o justo e piedoso também pode sofrer e seu sofrimento é para a glória de Deus. Observe que todo o sofrimento de Jó serviu para derrotar Satanás em suas pretensões e provar que os verdadeiros servos de Deus o adoram, apesar das circunstâncias, sem exigir nada em troca. 

O sofrimento do justo é uma tônica no Novo Testamento. Veja, por exemplo, o que Deus disse a Ananias sobre Paulo: “...este homem é meu instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e seus reis, e perante o povo de Israel. Mostrarei a ele o quanto deve sofrer pelo meu nome” (Atos 9.15,16). Anos depois, esse Apóstolo escreveu aos Filipenses as seguintes palavras: “pois a vocês foi dado o privilégio de não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por Ele...” (1.29). E o que dizer do sofrimento de Cristo, por meio de quem somos salvos da morte eterna?

Antônio Maia – M. Div.

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