Pular para o conteúdo principal

FÉ E RAZÃO EM BLAISE PASCAL



Foi na primeira metade do século XVII que surgiu a figura do importante matemático francês e filósofo cristão Blaise Pascal (1623-1662). Embora fosse um homem de ciência, não se envergonhava de posicionar-se como cristão diante da sociedade de sua época. A Europa, de então, encontrava-se dominada pelos pensamentos racionalistas e empiristas inaugurados, respectivamente, por René Descartes (1596-1650) e Francis Bacon (1561-1626).

Descartes (1596 - 1650), considerado por muitos como o fundador da Filosofia Moderna, revolucionou o pensar filosófico com sua obra O Discurso do Método. Nela, esse filósofo   afirma que se propôs a buscar “o verdadeiro método para chegar ao conhecimento de todas as coisas”. Seu método, que era constituído por quatro preceitos que ele os chamou de “cadeias de razões”, era fundamentado, unicamente, na razão (DESCARTES, 2017, p.20).

Já Bacon (1561 - 1626), junto com Galileu Galilei, assegurou a autonomia plena da Ciência em relação à Teologia e à Filosofia, até então a elas subordinadas. Foi ele quem sugeriu o uso da “indução” no método científico, que resultou no alcance de muitas descobertas. Também estabeleceu como objeto da Ciência “a causa das coisas naturais” e estabeleceu como fim da Ciência “servir ao progresso da civilização” (MONDIN, 2011, p.63,66). Desse modo, delineava-se uma nova maneira de ver o mundo, calcado na razão e na ciência.

Nesses novos modelos epistemológicos, um conhecimento só podia ser considerado verdadeiro e válido se fosse fundamentado na razão e comprovado pela experiência. Isso provocou questionamentos sobre a validade do conhecimento que vem pela Revelação. Como explicar, por exemplo, pela razão e pelo experimento, Deus, a encarnação do Filho, a ressurreição de Jesus Cristo? Começa, então, a estabelecer-se uma ênfase na razão e na experiência em detrimento da fé, na forma de entender a existência.

O estudioso, contemporâneo de Descartes e Bacon, que veio fazer contraponto a essas novas ideias foi Pascal. Ele realizou pesquisas em campos da Física e seus estudos na área da Matemática abriu os ramos da Geometria Projetiva e da Teoria das Probabilidades. Profícuo na produção científica, inventou uma máquina da calcular, La Pascaline. Respeitado na comunidade científica, Blaise Pascal se retirou, por quatro anos, para dedicar-se à Teologia e à Filosofia, quando produziu textos que até hoje inspiram e influenciam pessoas. 

Em sua obra “Pensamentos”, percebe-se que ele entende que a fé em Cristo não exclui o pensamento racional, no entanto, ele afirma que “o coração tem razões que a própria razão desconhece” [1]. O que ele queria dizer era que “é o coração que sente Deus e não a razão. Eis o que é fé: Deus sensível ao coração e não à razão” [2]. Sem desmerecer, contudo, a razão como brilhante cientista que era, Pascal destacou um aspecto filosófico, relevante: os limites da razão. Ele afirmou: “o último passo da razão é reconhecer que existe uma infinidade de coisas que a supera. Se não chegar a conhecer isso, ela é fraca. Se as coisas naturais a superam, o que dirá das sobrenaturais?” [3].

Desse modo, fica evidente que Blaise Pascal rejeita a visão de mundo, meramente, mecanicista e racionalista. Ele reconhece um âmbito espiritual na existência. Assim, alinha-se aos autores bíblicos, que afirmam que é no coração, isto é, no profundo do seu ser, que o homem sente Deus. É o que pode ser visto, por exemplo, no profeta Jeremias, quando Deus fala aos judeus, que se encontravam desorientados, no cativeiro babilônico: “vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo o coração” (29.13). O Apóstolo Paulo, também reconhece esse aspecto. Aos Efésios, falou: “oro também para que os olhos do coração de vocês sejam iluminados, a fim de que vocês conheçam a esperança para qual ele os chamou” (1.18). Pascal, tão brilhante quanto Descartes e Bacon, opôs-se a eles e manteve Deus como aspecto a considerar no esforço pela compreensão do mistério do mundo.

Antônio Maia – M.Div

Direitos autorais reservados

DESCARTES, René. O Discurso do Método. São Paulo: Martin Claret, 2017.

MONDIN, Battista. Curso de Filosofia – Volume 2. São Paulo: 2011.

[1] PASCAL, Blaise. Pensamentos. São Paulo, Abba Press, 2002, p.50

[2] Idem, p.50

[3] Ibidem, p.51

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

JESUS, INCOMPREENDIDO. - PARTE II

Como visto na primeira parte dessa reflexão, até mesmo os discípulos, que eram tão próximos a Jesus e caminhavam com Ele, não o compreendiam, de início. A causa, como já dito, era o fato de que eles esperavam um Messias político-nacionalista que libertaria Israel do império romano e o elevaria a uma posição importante entre as nações. No entanto, Jesus não se envolvia com política, era profundamente espiritual e afirmava que seu “Reino” não era deste mundo (João 18:36). Na verdade, o centro de seu ensino e pregação era, exatamente, o “Reino de Deus” (Lucas 6:20; 8:10; 9:62; 10:9; 11:2; 11:20; 12:31; 13:29; 16:16;17:20,21; 18:16,24; 21:31; 22:29,30). Mas, outros aspectos de sua pessoa contribuíam para essa incompreensão. Embora fosse um homem de “carne e sangue” com família e endereço fixo, seu nascimento sobrenatural, sua vida profunda de oração e a originalidade de seu ensino e pregação faziam as pessoas o virem como diferente e especial. Contudo, nada foi tão forte e impactante para

A MORTE DE CRISTO

  O autor do livro de Hebreus, escrevendo sobre Jesus, narrou: “portanto, visto que os filhos são pessoas de carne e sangue, ele também participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte” (2.13,14). Neste texto, três questões se destacam: a necessidade de Deus, na pessoa do Filho, participar da condição humana, isto é, entrar no mundo; a vitória de Jesus sobre o Diabo; e o sacrifício de Jesus, na cruz, que salva da morte os seres humanos. Com respeito à primeira questão, pode-se afirmar que o Filho entrou no mundo para libertar a humanidade da morte eterna, que se instalou, no ser humano, por ocasião do pecado original. O Apóstolo Paulo escrevendo sobre esse assunto, aos Romanos, falou: “da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecar

JESUS, INCOMPREENDIDO. PARTE I

Os evangelhos mostram que até os discípulos de Jesus, de início, não o compreendiam. Ele era de “carne e sangue” (Hebreus 2.14) como todos nós, tinha uma família, uma profissão, mas os discípulos notavam que Ele era diferente. Suas atitudes, sua fala, sua espiritualidade e seu poder para realizar milagres faziam os discípulos o verem como o Messias que estava por vir, mas não exatamente como eles pensavam. Certa noite, enquanto eles atravessavam o mar da Galileia, Jesus dormia na popa do barco, quando sobreveio grande tempestade de tal modo que os discípulos se desesperam e o acordaram, clamando por socorro. Então, Jesus repreendeu o vento e a fúria do mar e logo veio grande calmaria. Ao verem Ele fazer aquilo, os discípulos ficaram admirados e falavam uns com os outros: “quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Marcos 4: 35-41). Mas essa incompreensão sobre a pessoa de Jesus não estava limitada apenas aos discípulos. Certa vez, Ele retornou à cidade onde cresceu, Nazaré