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O CRISTÃO E O SOFRIMENTO

 








O sofrimento é uma das marcas mais fortes da condição humana. As guerras, a fome, as doenças, as catástrofes naturais e o próprio sistema mundial impõem à humanidade um processo permanente de dor e angústia. Não era para ser assim, mas a Queda, isto é, o afastamento do homem de seu Criador por causa do pecado original (Gn 3), provocou esse quadro caótico. Em que pese essa realidade, há em certos meios cristãos, um “evangelho” triunfalista e alienante que afirma que os seguidores de Cristo são imunes a tais sofrimentos.

Muitos pregadores dessa visão, ao invocar a famosa frase paulina “tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4:13), passam a impressão de que os cristãos não perdem emprego, não tem prejuízos nos negócios, não ficam doentes, não tem conflitos internos. Como tal prédica não se sustenta no evangelho de Cristo, quando vêm as tribulações, muitos se decepcionam e abandonam a fé. É preciso observar o contexto da frase de Paulo. Em Cristo, ele disse que pode todas as coisas, inclusive “passar necessidades”, e até agradece aos Filipenses por o ajudarem, em suas tribulações (Fl4.10-19).  

É natural desejarmos uma vida abençoada com paz e harmonia e Deus concede isso a muitos de seus filhos. Contudo, o próprio Jesus alertou: “neste mundo vocês terão aflições” (João 16.33). Assim, a forma como o cristão enfrenta o sofrimento mostra a sua maturidade espiritual, pois mais cedo ou mais tarde, com fraca ou forte intensidade, ele baterá à porta. Em geral, o sofrimento vem sobre o seguidor de Cristo a partir de quatro fontes, a saber: a vida de testemunho, o pecado, as decisões equivocadas e o simples fato de ele estar no mundo. 

Com respeito à vida de testemunho, pode-se afirmar que todo cristão que decide viver como “sal da terra” e “luz do mundo” padecerá sofrimentos. O Apóstolo Paulo escrevendo aos Coríntios disse: “bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo... que nos consola em todas as nossas tribulações, para que com a consolação que recebemos de Deus, possamos consolar os que estão passando por tribulações” (2Coríntios1:3,4). Essas tribulações que veem do testemunho cristão é um aspecto da vida espiritual. Mas é preciso que se saiba o que disse Jesus: “bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem... (Mateus 5.11).

Contudo, muitas vezes as tribulações veem sobre o cristão por causa de suas próprias decisões. Embora não tenha mais prazer no pecado e procure viver para agradar a Deus, por vezes ele peca e isso lhe traz sofrimento. Sua consciência o acusa de agir sem amor para consigo mesmo, com o próximo e com Deus. Também as consequências e as marcas do ato, as vezes permanecem e são fontes de aflições. Ao par desse lado espiritual, há as aflições que veem de decisões erradas, impensadas e equivocadas nos negócios e outros aspectos da vida.    

Mas, o simples fato de o cristão estar em um mundo caído, também, o torna alvo de sofrimento. O que dizer daqueles que perderam entes queridos, suas empresas, seus negócios e seus empregos na pandemia, que ora aflige o mundo? Por volta de 44 ou 46 d.C., houve uma grande fome em todo o império romano, durante o reinado de Cláudio. Aliado a isso, a grande perseguição a que ficaram sujeitos os cristãos de Jerusalém os levaram ao empobrecimento. Paulo, então, levantou uma oferta nas igrejas da Galácia, Macedônia e Corinto para ajudá-los. Veja o que Apóstolo escreveu sobre as igrejas da Macedônia: “no meio da mais severa tribulação, a grande alegria e a extrema pobreza deles transbordaram em rica generosidade (2Coríntios 8:2).

Não se trata de defender uma visão negativa ou pessimista da vida, mas de apresentar a realidade para o desenvolvimento de uma fé madura. A pregação que afirma que, ao aceitar Cristo, tudo vai melhorar, a prosperidade material virá e a vida será um mar de rosas é fruto de uma mentalidade hedonista e não tem base no evangelho de Cristo. Isso não significa que ser cristão é viver no sofrimento, mas as dificuldades podem aparecer. A vida de oração a confiança em Deus trará a maturidade espiritual para enfrentar tudo isso com paz e dignidade. Paulo disse que as tribulações que ele e seus companheiros sofreram, na Ásia, estavam além de suas capacidades, mas eles colocaram sua confiança em Deus e este os livrou (2Coríntios1:8-11). Deus está conosco na caminhada que temos que realizar.

Antônio Maia – M. Div.

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