Pular para o conteúdo principal

CIÊNCIA E FÉ



É verdade que, hoje em dia, ainda existem cientistas cristãos e outros, mesmo não cristãos, que creem na existência de Deus. Contudo, o grande projeto da Ciência é um mundo sem Deus. A maioria dos estudiosos desse campo do conhecimento humano não considera Deus em suas equações. Três razões podem explicar esse fato: uma é o desejo de autonomia do homem caído e morto, do ponto de vista espiritual; outra, talvez, seja a falta de razoabilidade das religiões criadas pelo homem sem Deus; e a terceira está no fato de a Ciência ser incapaz de examinar Deus e a realidade espiritual.

De fato, de acordo com a Bíblia, foi o desejo de uma vida autônoma que levou o primeiro homem a não obedecer a Deus. Após o passo que resultou na Queda, o ser humano morreu espiritualmente e, por isso, não discerne a realidade espiritual. Longe de Deus, mas desejoso por Ele, o homem criou religiões, mas a sua práxis, muitas vezes, afasta as pessoas sensatas de Deus. Muitas religiões alienam o ser humano do mundo real e outras são responsáveis por guerras e crueldades contra o homem em nome de Deus. Já a ciência, por causa de seu método, só alcança análises do mundo natural, da realidade concreta.  

Não era para ser assim, pois a Ciência nasceu e permaneceu associada à religião por muitos anos. Conforme Hart-Davis... et al (2016, p.18), na antiga Mesopotâmia, ainda no quarto milênio a.C. “os sacerdotes sumerianos estudavam as estrelas e registravam os resultados em tabuletas de barro. Eles não deixaram registros de seus métodos, mas uma tabuleta datada de 1800 a.C. demonstra o conhecimento das propriedades de triângulos retângulos”. Aristóteles (1938, p.50), em sua obra Metafísica, registrou que havia, entre os sacerdotes egípcios, peritos nas artes matemáticas. 

Também o britânico, William Bynum (2014, posições 10 e 17), historiador da medicina, afirma que “os primeiros cientistas (apesar de não se chamarem assim naquela época) eram provavelmente sacerdotes” e que, durante grande parte da história, a ciência foi usada em conjunto com a magia, a religião e a tecnologia para compreender e controlar o mundo. Note, então que a ciência nasce associada à religião. Mondin (2011, p.60) afirma que essa associação da ciência com a religião só veio a desfazer-se no início da Idade Moderna, quando Francis Bacon e Galileu Galilei propuseram alterações no método científico que a levou a grandes descobertas.

Hoje, a maioria dos cientistas e as pessoas em geral depositam grande confiança na ciência e negam, abertamente, a existência de Deus e a realidade espiritual. Mas a ciência não era vista como inimiga da fé. Galileu, autor de uma nova física, que substituiu a aristotélica, era cristão. Isaac Newton, o pai da física moderna era também teólogo cristão. Nicolau Copérnico, que revolucionou o mundo ao provar que a Terra se movia ao redor do Sol e não o contrário e que ela não era o centro do universo, era Cônego Católico. E a importante teoria, atual, que explica a origem do universo, o Big Bang, é de autoria do Padre Belga, Georges Lemaître.  

É mera ilusão achar que o homem pode chegar à verdade por meio da ciência. O importante filósofo, alemão, Kant afirmou que “o homem não é capaz de um conhecimento absoluto... não conhece o objeto como ele é em si mesmo, como coisa em si, mas apenas como ele se manifesta, aparece, ou seja, como fenômeno” (KRASTANOV, 2013, P.48). É também relevante que se diga que a ciência tem limite. “Este limite não consiste no que a ciência diz, mas no que a ciência não diz e jamais poderá dizer. O conhecimento científico é parcial, enquanto não atinge a existência profunda, mas a existência superficial” (MORRA, 2004, p.47).

Não há nenhuma incompatibilidade entre ciência e fé. Ela é uma bênção a serviço da humanidade que ajuda a compreender, em parte, o mundo e a melhorar as condições de vida nele. Mas a mente caída, arrogante e presunçosa pode usá-la para o mal e como plataforma para negar Deus. Para esses, contudo, fica a palavra que Deus falou a Jó: “prepare-se como simples homem; vou fazer-lhe perguntas e você me responderá. ‘Onde você estava quando lancei os alicerces da terra? Responda-me se é que você sabe tanto? Quem marcou os limites das suas dimensões?... Você já foi até às nascentes do mar, ou já passou pelas obscuras profundezas do abismo? As portas da morte lhe foram mostradas?... Fale-me, se é que você sabe? (Jó 38:3,4,5,16,18). 

Antônio Maia – M.Div.

Direitos autorais reservados ao autor.

KRASTANOV, Stefan Vasilev. Metafísica II. Batatais: Claretiano, 2013.

MORRA, Gianfranco. Filosofia Para Todos. São Paulo: Paulus, 2004.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

JESUS, INCOMPREENDIDO. - PARTE II

Como visto na primeira parte dessa reflexão, até mesmo os discípulos, que eram tão próximos a Jesus e caminhavam com Ele, não o compreendiam, de início. A causa, como já dito, era o fato de que eles esperavam um Messias político-nacionalista que libertaria Israel do império romano e o elevaria a uma posição importante entre as nações. No entanto, Jesus não se envolvia com política, era profundamente espiritual e afirmava que seu “Reino” não era deste mundo (João 18:36). Na verdade, o centro de seu ensino e pregação era, exatamente, o “Reino de Deus” (Lucas 6:20; 8:10; 9:62; 10:9; 11:2; 11:20; 12:31; 13:29; 16:16;17:20,21; 18:16,24; 21:31; 22:29,30). Mas, outros aspectos de sua pessoa contribuíam para essa incompreensão. Embora fosse um homem de “carne e sangue” com família e endereço fixo, seu nascimento sobrenatural, sua vida profunda de oração e a originalidade de seu ensino e pregação faziam as pessoas o virem como diferente e especial. Contudo, nada foi tão forte e impactante para

A MORTE DE CRISTO

  O autor do livro de Hebreus, escrevendo sobre Jesus, narrou: “portanto, visto que os filhos são pessoas de carne e sangue, ele também participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte” (2.13,14). Neste texto, três questões se destacam: a necessidade de Deus, na pessoa do Filho, participar da condição humana, isto é, entrar no mundo; a vitória de Jesus sobre o Diabo; e o sacrifício de Jesus, na cruz, que salva da morte os seres humanos. Com respeito à primeira questão, pode-se afirmar que o Filho entrou no mundo para libertar a humanidade da morte eterna, que se instalou, no ser humano, por ocasião do pecado original. O Apóstolo Paulo escrevendo sobre esse assunto, aos Romanos, falou: “da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecar

JESUS, INCOMPREENDIDO. PARTE I

Os evangelhos mostram que até os discípulos de Jesus, de início, não o compreendiam. Ele era de “carne e sangue” (Hebreus 2.14) como todos nós, tinha uma família, uma profissão, mas os discípulos notavam que Ele era diferente. Suas atitudes, sua fala, sua espiritualidade e seu poder para realizar milagres faziam os discípulos o verem como o Messias que estava por vir, mas não exatamente como eles pensavam. Certa noite, enquanto eles atravessavam o mar da Galileia, Jesus dormia na popa do barco, quando sobreveio grande tempestade de tal modo que os discípulos se desesperam e o acordaram, clamando por socorro. Então, Jesus repreendeu o vento e a fúria do mar e logo veio grande calmaria. Ao verem Ele fazer aquilo, os discípulos ficaram admirados e falavam uns com os outros: “quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Marcos 4: 35-41). Mas essa incompreensão sobre a pessoa de Jesus não estava limitada apenas aos discípulos. Certa vez, Ele retornou à cidade onde cresceu, Nazaré