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O SENTIDO DA PALAVRA "PAI" NA ORAÇÃO DE JESUS



Certo dia, um discípulo de Jesus lhe fez o seguinte pedido: “Senhor, ensina-nos a orar”. (Lucas11:1). Em atenção, Jesus ensinou uma oração que depois se transformou em um símbolo do cristianismo e que, ainda hoje, é orada: a oração do “Pai nosso”. O texto não revela, mas é possível inferir que o discípulo deve ter ficado chocado ao ouvi-la, pois os judeus não chamavam Deus de Pai. Portanto, tratava-se de um ensino dotado, não apenas, de absoluta originalidade, mas também de um caráter revolucionário e contestador, o qual custaria a Jesus a sua própria vida (Joao 5:18).  

Nem nos tempos do Antigo Testamento, bem como naqueles dias, havia essa prática. Eles sabiam que Deus os amava, mas o viam como o Criador que se revelou a eles e que, com rigor, zelava por sua Lei. Devido a essa visão que tinham de Deus, a espiritualidade judaica, à época de Cristo, era perpassada por um viés legalista e de falsa devoção (Mateus6:1-18; 23:23-33). A fixação na Lei levou os líderes judaicos a catalogarem, nela, 613 mandamentos, nos quais estruturaram toda a práxis religiosa. Algo que era para ser libertador foi reduzido a um aparelho de opressão e discriminação. 

Jesus denunciou, com rigor, a religiosidade falsa dos líderes, a ponto de chamá-los de hipócritas e “sepulcros caiados”. O Apóstolo Paulo considerou como “justiça própria” a tentativa deles alcançarem a salvação por seus próprios esforços, rejeitando a “justiça divina”, isto é, Cristo. O homem, devido a sua condição de pecado, não consegue cumprir toda a Lei divina. No entanto, o cristão busca guardar a Palavra divina, sob a orientação do Espírito, como uma resposta de amor àquele que o amou primeiro. Mas ele sabe de suas dificuldades nessa área (Joâo14:15; Romanos7:14-24; 1João1:8-10). Só um homem de carne e sangue cumpriu toda a Lei: Jesus Cristo (Hebreus 4:15). No tocante a esse aspecto, os evangelhos revelam que um esforço da ação de Jesus, naqueles dias, consistia em contestar e desconstruir aquele modelo de religiosidade. 

A palavra “Pai” assume um sentido central na oração que Jesus ensinou e essa oração constitui uma síntese das principais ênfases de seu ensino. Ao posicioná-la como primeira palavra a ser dita ao orar, Jesus ensina que Deus, e não aquele que ora, constitui o centro desse momento íntimo de conversa. Alguns temas presentes nessa oração: a questão do mal, a condição humana de pecado, o Reino dos céus e o próprio Deus, no conceito “Pai”. O cristão atual não avalia o impacto dessa palavra na estrutura religiosa de Israel, pois os dois mil anos de cultura ocidental cristã a tornou comum para ele. Fato é, contudo, que ela foi um baque em uma das importantes colunas da religiosidade daquela época: a oração. 

Quando Jesus diz que devemos chamar Deus de “Pai”, Ele muda a nossa visão de Deus e o aproxima de nós. A oração deixa de ser um ato formal, uma penitência e torna-se uma conversa com o Pai, em um contexto familiar. Esse ensino de Cristo tem íntima relação com outro, igualmente, revolucionário: a necessidade de o homem nascer de novo (João: 3). Muitos não conseguem chamar Deus de Pai ou o chamam, mas não se sentem à vontade porque não tiveram a experiência de nascer para a vida no Espírito, isto é, nascer para a realidade espiritual nascer para Deus (João: 3). 

Nos perdemos de nós mesmos e de Deus, quando dele nos separamos, no Éden. Naquele momento, morremos espiritualmente, pois nos desligamos de nosso Criador. Agora, vivemos a morte, isto é, a separação de Deus. Não sabemos quem somos, de onde viemos, para onde vamos, nem a razão de estarmos no mundo. Aquele “eu”, anterior ao pecado original, não existe mais. Naquele ato adâmico, nos alienamos não apenas de Deus, mas de nós mesmos. 

Somo como aquele filho daquela parábola de Jesus, que o evangelista Lucas registrou (Lucas 15). Quando o filho retorna para o pai, este fala: “este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado” (Lucas15:24). Jesus ensina que Deus nos vê como filhos, daí a importância daquela palavra que Ele falou para Nicodemos: “necessário vos é nascer de novo”. Assim, a palavra “Pai” é o caminho não apenas para Deus, mas para nós mesmos. Quando, em oração, chamamos Deus de “Pai” e não nos sentimos constrangidos é porque nos encontramos não apenas com Ele, mas com nós mesmos. Ele é nosso Pai e somos seus filhos porque nascemos para Ele, quando reconhecemos o sacrifício de seu Filho e o recebemos como nosso Senhor e Salvador.

(Texto redigido com base em nosso livro (ebook) Senhor, Ensina-nos a Orar - Um Ensaio Sobre a Centralidade de Deus na Oração, pulicado na amazon.com.br)

Antônio Maia

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